É preciso saber ser ousado

21 05 2008

 

 

A campanha criada pela DM9DDB para a Cia Athletica não me agradou. É com certeza uma proposta ousada. Mas é preciso saber até que ponto a ousadia contribui para atingir o objetivo. Aproveitou-se de um acontecimento na cidade de São Paulo, que foi a proibição de veiculação de campanhas em mídia-exterior, para relacionar este assunto à obesidade e ridicularizar classe obesa.

Utilizar-se do humor pode ser uma boa tática, mas ridicularizar pessoas de um determinado perfil pode gerar uma imagem negativa da empresa. Ainda mais, no caso desta campanha. A Cia Athletica, enquanto academia, deveria estimular a prática do exercício físico, e, no caso da obesidade, por exemplo, não apenas pela estética, mas principalmente pela saúde. Refiro-me, ainda, ao post anterior sobre sustentabilidade, no qual cito e comento o livro “Propaganda Responsável: É o que todo anunciante deve fazer”. A autora Ana Cláudia Marques Govatto se refere a publicidade não apenas como um instrumento de venda, mas como uma forma de informar e conscientizar a população. Primeiro, porque a publicidade pode ser capaz de contribuir para uma melhor formação de todos os cidadãos. E, segundo, por que demonstrar-se preocupado em informar e conscientizar pode melhorar a imagem de qualquer marca.

Não apenas pela falta de humor, pela situação forçada e pela apelação contida nesta campanha. Mas também pela falta de preocupação em trabalhar um público em potencial. Isso, porque se existe uma parcela da sociedade que necessita comparecer a academia, esta é a parcela obesa. Tentar convencê-los ridicularizando-os pode não ser a melhor forma.

Discordo dos argumentos que li no blog 30 segundos. O autor do texto defende a ousadia na publicidade e argumenta que a ridicularização da parcela obesa da sociedade é algo corriqueiro e bem aceito quando feita em programas humorísticos. E complementa que a ação foi bem sucedida por ter gerado polêmica e estar sendo discutida já há algumas semanas, principalmente no meio publicitário.

Concordo que a ousadia é sempre bem vinda, mas deve-se saber que publicidade e comunicação não é brincadeira e muito menos programa humorístico. Deve-se pensar que informar é importante, conscientizar é importante e, principalmente, gerar nos consumidores impacto necessário para que consumam determinado serviço. E, ainda, deve-se medir o impacto da campanha pela reação do público-alvo e pelo aumento da demanda, e não pelo impacto gerado e pela polêmica criada no meio publicitário.

 


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4 respostas

21 05 2008
Matheus

Gostei muito de seu texto, Tiago, mas o foco do que escrevi é a experimentação na propaganda e não aspectos subjetivos sobre o que é ou não ofensivo.

É claro que ofensas veladas e desrespeito como os que acontecem contra as minorias em muitas propagandas se encaixam no que você menciona, mas no caso desta campanha, o assunto foi conduzido com um tipo de humor que é muito ácido e sutil.

Quase todas as pessoas a quem mostrei o vídeo, inclusive as que estão acima do peso, gostaram do que viram e somente as que estudam a publicidade levantaram a questão da ridicularização de uma condição física. Muito mais ofensivas são as campanhas que simplesmente fingem que estas pessoas não existem. E é neste ponto que entra o fator ousadia que mencionei. Mesmo com a campanha fora do ar (o que foi feito espontênea e propositadamente), o comentário em torno dela continua grande, o que torna inegável o sucesso da peça.

Obrigado por incluir o 30 Segundos na discussão e fique à vontade para me convidar para quaisquer outras.

Abraço!

Matheus
30″

21 05 2008
Danilo

É uma campanha ofensiva e de péssimo gosto.
Publicidade deve ser feita sempre pela sedução e pela valorização das qualidades do produto ou serviço; e não pelo preconceito ou pela exposição ao ridículo de terceiros.

21 05 2008
Cibele

É tiago, concordo.
Ousadia tem limites. E os argumentos a favor que encontrei no link adicionado ao seu post são péssimos. Essa ridicularização do obeso causa muito mais revolta nessas pessoas do que vontade de melhorar a saúde praticando esportes ou fazendo dietas balanceadas. Então não sei se seria essa a linha que uma academia deveria seguir quando se trata de seu comercial. Me lembra a publicidade de uma outra academia (não me lembro o nome) que colocou em um outdoor a seguinte frase: “Nesse verão vc vai querer ser sereia ou baleia??” ( … )
Anti-ética. No código de ética de Publicidade e Propaganda fala claramente que nenhum anúncio deve favorecer ou estimular qualquer tipo de ofensa ou discriminação. Só isso já basta né.

18 06 2008
Não pense como um publicitário (o método antropológico) « tiago aroeira

[...] Leia este post: É preciso saber ser ousado [...]

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